A história do risotto


O risotto, prato de arroz cremoso e versátil, percorreu um caminho singular até se estabelecer como um dos pilares da gastronomia italiana. Originário das regiões do norte de Itália, este método de preparação transformou um ingrediente importado — o arroz — numa expressão autêntica da identidade culinária italiana.

O arroz, contrariamente ao que muitos possam supor, não é um ingrediente nativo da península itálica. Introduzido através de rotas comerciais que ligavam a Europa ao Oriente, o cereal encontrou no Vale do Pó, no norte de Itália, condições ideais para o seu cultivo. Os solos férteis e a abundância de água permitiram que, a partir do século XV, o arroz se estabelecesse como uma cultura agrícola significativa na região.

Durante o Renascimento italiano, período de efervescência cultural e artística, a gastronomia não ficou imune às transformações. Nas cortes aristocráticas do norte de Itália, particularmente em Milão, o arroz começou a ser preparado de forma inovadora. Em vez de simplesmente cozido em água, passou a ser elaborado com caldo, manteiga e, eventualmente, açafrão — nascendo assim o que viria a ser conhecido como “risotto alla milanese”.

A manteiga tornou-se um elemento distintivo na cozinha das classes superiores italianas. Bartolomeo Scappi, chef papal do século XVI, demonstrava uma predileção pela manteiga, uma gordura pouco utilizada na Idade Média, mas que viria a ser identificada como uma opção saudável, bem como a escolha de gordura das classes superiores nos séculos seguintes. Esta preferência, em detrimento de outras gorduras como o azeite, é fundamental para compreender a textura cremosa que caracteriza o risotto.

A técnica de preparação do risotto — que envolve tostar o arroz em gordura antes de adicionar líquido gradualmente — distingue-o de outros pratos de arroz. Este método, conhecido como “tostatura”, permite que os grãos libertem amido lentamente, criando a textura cremosa característica sem perder a firmeza.

O regionalismo, aspeto central da gastronomia italiana, manifestou-se na diversificação das receitas de risotto. Cada região do norte de Itália desenvolveu as suas próprias variações:

  • Na Lombardia, o risotto alla milanese, com o seu característico tom amarelo-dourado conferido pelo açafrão, tornou-se um símbolo da sofisticação milanesa.
  • No Piemonte, o risotto incorporou trufas brancas locais, criando uma versão luxuosa e aromática.
  • No Véneto, o risotto de peixe refletia a proximidade com o mar Adriático e a tradição pesqueira da região.

Esta diversidade regional contribuiu para a riqueza do repertório culinário italiano, demonstrando como um único prato pode assumir múltiplas identidades conforme o contexto geográfico e cultural.

No século XIX, período de significativas transformações sociais em Itália, o risotto adquiriu dimensões simbólicas que transcendiam o mero valor nutricional. A escolha de ingredientes e métodos de preparação frequentemente sinalizava posição social.

A preferência pela manteiga em detrimento de outras gorduras, como mencionado anteriormente, não era apenas uma questão de gosto, mas também uma afirmação de status. O risotto, com a sua dependência de ingredientes como manteiga, caldo de qualidade e, em algumas versões, açafrão ou trufas, tornou-se um prato que demarcava distinções sociais.

A partir do final do século XIX e ao longo do século XX, a cozinha italiana iniciou um processo de internacionalização que a transformou numa das mais apreciadas globalmente. O risotto, contudo, não alcançou imediatamente o mesmo nível de reconhecimento internacional que pratos como a pizza ou a massa.

Por que razão o risotto demorou mais a conquistar paladares internacionais? Uma possível explicação reside na sua técnica de preparação relativamente complexa e na dificuldade de padronização. Enquanto a massa podia ser facilmente adaptada a diferentes contextos e preferências, o risotto exigia uma compreensão mais profunda da técnica e dos ingredientes específicos.

No entanto, com o crescente interesse pela gastronomia autêntica e regional, o risotto ganhou progressivamente reconhecimento internacional. Chefs de renome começaram a incorporá-lo nos seus menus, explorando combinações inovadoras que respeitavam a técnica tradicional.

Na gastronomia contemporânea, o risotto ocupa uma posição privilegiada como um prato que honra a tradição enquanto se abre à inovação. A sua versatilidade permite que se adapte a tendências culinárias emergentes, como a valorização de ingredientes locais e sazonais ou a crescente procura por opções vegetarianas e veganas.

Embora não seja tão universalmente associado a Itália como a massa, o risotto representa um aspeto fundamental da diversidade regional que caracteriza a gastronomia do país.

A comida romana das classes superiores não era caracterizada por um regionalismo insular, chauvinisticamente baseado nos seus próprios produtos e receitas cobiçadas. A sua era mais precisamente uma Cozinha Internacional ao estilo romano. Apesar de específica a Roma, esta observação, ilustra uma dinâmica mais ampla na gastronomia italiana: a tensão produtiva entre influências locais e internacionais.

O risotto, com as suas origens que combinam um ingrediente importado com técnicas e sensibilidades culinárias distintamente italianas, exemplifica esta dinâmica. Representa simultaneamente a abertura da Itália a influências externas e a sua capacidade de transformar essas influências em algo autenticamente italiano.

Os desafios ambientais, particularmente as alterações climáticas e a escassez de água, também podem afetar o cultivo de arroz no norte de Itália, potencialmente influenciando o futuro do risotto. Estas questões sublinham a importância de práticas agrícolas sustentáveis para preservar não apenas um ingrediente, mas toda uma tradição culinária.

O risotto, na sua aparente simplicidade, encapsula a complexidade da história culinária italiana. De um cereal importado a um prato emblemático, a sua trajetória ilustra como a gastronomia se entrelaça com questões de identidade, classe social, regionalismo e adaptação cultural.

Ao saborear um risotto, não estamos apenas a degustar um prato, mas a participar numa tradição viva que continua a evoluir. É um testemunho da capacidade italiana de transformar o ordinário em extraordinário, de elevar ingredientes simples através de técnica e paixão, criando algo que transcende as suas origens para se tornar uma expressão autêntica de cultura e identidade.

Literatura recomendada
Capatti, Alberto e Montanari, Massimo. Italian Cuisine: A Cultural History. Columbia University Press, 2003.
Parasecoli, Fabio. Al Dente: A History of Food in Italy. Reaktion Books, 2014.

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