
A bananeira, contrariamente à perceção popular, não é uma árvore, mas sim uma erva perene gigante. Esta classificação botânica surpreendente revela apenas o primeiro de muitos aspetos fascinantes desta planta que transformou economias, alimentou civilizações e continua a ser um dos pilares alimentares em várias regiões do mundo. A sua estrutura única, história milenar e importância económica global fazem da bananeira um caso de estudo exemplar na interseção entre botânica, história e antropologia.
A estrutura herbácea de uma gigante
O que parece ser o tronco da bananeira não é, na realidade, uma estrutura lenhosa nem sequer um caule verdadeiro. Trata-se de um pseudocaule formado pela sobreposição das bainhas das folhas, criando uma estrutura cilíndrica robusta mas não lenhosa. Esta característica morfológica distingue-a fundamentalmente das árvores verdadeiras, que possuem tecidos lenhosos e crescimento secundário.
A parte subterrânea da planta consiste num cormo, uma estrutura semelhante a um bolbo, de onde emergem as porções aéreas. Após a produção de um cacho de bananas, o pseudocaule eventualmente morre, mas a planta continua viva através dos rebentos laterais ou “filhos” que brotam do cormo. Estes rebentos crescem e produzem novos pseudocaules que, por sua vez, darão origem a novos cachos de bananas nas estações seguintes.
Esta capacidade de regeneração contínua confere à bananeira uma qualidade quase imortal. Algumas plantações, no entanto, mantiveram-se produtivas durante um século, demonstrando a extraordinária longevidade potencial deste sistema de crescimento.
O fruto da bananeira, contrariamente ao que muitos pensam, é classificado botanicamente como uma baga, apesar do seu tamanho considerável. Esta classificação deve-se à sua estrutura interna e desenvolvimento a partir do ovário da flor, sem a formação de um endocarpo lenhoso.
Das origens asiáticas à globalização
A história da banana como planta cultivada remonta a tempos ancestrais no Sudeste Asiático, particularmente na região da Malásia. Embora o registo mais antigo date de 500 a.C. na Índia, presume-se que o seu cultivo seja muito mais antigo, ainda que a data exata permaneça desconhecida.
As bananas selvagens possuíam frutos relativamente pequenos com numerosas sementes duras, o que as tornava pouco atrativas como alimento. Outras partes das plantas selvagens eram provavelmente mais consumidas: o cormo subterrâneo, os rebentos e o grande botão masculino, como ainda acontece em algumas regiões tropicais. As fibras do pseudocaule também eram utilizadas. A transformação decisiva ocorreu quando uma alteração genética conduziu a frutos sem sementes.
A ausência de sementes nas bananas modernas resulta de dois fenómenos: a partenocarpia (desenvolvimento do fruto sem polinização) e a esterilidade. A espécie ancestral das nossas bananas domesticadas é a Musa acuminata, que ainda existe sob a forma de numerosas raças no Sudeste Asiático. Em determinado momento, esta espécie hibridizou com outra, a Musa balbisiana, resultando numa diversidade genética que inclui bananas “puras” de Musa acuminata e outras contendo um ou dois conjuntos cromossómicos de Musa balbisiana.
Um evento crucial no desenvolvimento das bananas comestíveis foi a adição de um conjunto cromossómico ao conjunto diploide normal. Estes triploides, derivados de cruzamentos entre diploides e tetraploides, são mais produtivos e vigorosos, além de geralmente estéreis e bastante variáveis, proporcionando plantas superiores para seleção. Atualmente, a maioria das bananas cultivadas são triploides, embora algumas diploides e poucas tetraploides também sejam cultivadas.
A banana chegou a África por volta do início da era cristã, juntamente com outras plantas alimentares do Sudeste Asiático. Alguns investigadores sugerem que a introdução destas plantas provocou um crescimento populacional significativo em África. A planta foi mencionada pela primeira vez na Europa num relato de Alexandre, o Grande, e Plínio escreveu que era a planta dos sábios – daí um dos nomes de Lineu para a banana, Musa sapientum, “dos homens sábios”. Outro nome lineano anteriormente utilizado era Musa paradisiaca, pois acreditava-se que era a Árvore do Paraíso ou a Árvore do Conhecimento entre alguns povos.
Da África, a banana foi levada para as Américas em 1516 e estabeleceu-se tão rapidamente que alguns viajantes iniciais pensaram tratar-se de uma planta indígena americana. De África veio também o nome “banana”.
Cultivo e exigências ambientais
A bananeira é predominantemente uma cultura tropical que necessita de calor considerável e água abundante, com drenagem adequada. Algumas variedades são produzidas em áreas subtropicais relativamente secas, geralmente sob irrigação. A planta requer poucos cuidados além da poda para remover rebentos indesejados.
É uma cultura que exige muito do solo. A prática de cultivo limpo, ou remoção de todas as ervas daninhas na plantação, que tende a promover a erosão, já não é recomendada. A propagação é feita através de rebentos ou cormos, perpetuando geneticamente as características desejáveis das plantas-mãe.
Das aproximadamente trezentas variedades de bananas existentes, apenas algumas chegam aos mercados internacionais. A variedade Gros Michel foi durante muito tempo a mais comum nos Estados Unidos, mas as variedades Valery e Cavendish, mais resistentes a certas doenças, substituíram-na em grande parte. Existem outras variedades com sabor superior, mas que infelizmente não se transportam tão bem quanto as anteriormente mencionadas.
As bananas são colhidas ainda verdes, mesmo para consumo local nos trópicos, onde os tipos doces são deixados a amadurecer num local sombreado perto das casas para serem utilizados conforme necessário. Os frutos destinados à exportação são amadurecidos em condições cuidadosamente controladas, e por vezes utiliza-se etileno para acelerar o processo.
Impacto económico e político
Embora o papel da banana na história possa não ser tão significativo quanto o da batata, teve um impacto considerável na América Central, onde muitos países ficaram conhecidos como “repúblicas das bananas”. Esta história começou em 1870, quando as bananas foram exportadas pela primeira vez da América tropical para os Estados Unidos, onde se revelaram imensamente populares e lucrativas.
Em 1871, o magnata americano Minor Cooper Keith construiu uma ferrovia na Costa Rica. Procurando mercadorias para transportar, começou a plantar bananas três anos depois. Em 1899, os interesses de Keith fundiram-se com a Boston Fruit Company para formar a United Fruit Company, que exerceria controlo sobre as economias e governos de várias nações centro-americanas durante mais de cinquenta anos. De facto, a queda do Presidente Jacobo Arbenz da Guatemala em 1954 foi iniciada pelo governo dos EUA para proteger os interesses da United Fruit Company, embora a razão apresentada fosse salvar o país do comunismo.
Os Estados Unidos importam mais bananas do que qualquer outro país. Há alguns anos, Honduras e Costa Rica estavam entre os principais exportadores, mas quando uma doença fúngica destruiu muitas das plantações comerciais na América Central, a pequena república sul-americana do Equador tornou-se o principal exportador mundial, posição que mantém atualmente. Os países centro-americanos estão a cultivar variedades mais resistentes a doenças, e Honduras é agora o segundo maior produtor mundial.
Valor nutricional e versatilidade culinária
A banana não só vem numa das embalagens mais práticas e convenientes de todas as plantas alimentares, como também é uma das melhores fontes de energia. O seu valor nutritivo é muito semelhante ao da batata branca, embora nas variedades de sobremesa mais hidratos de carbono estejam na forma de açúcar. Uma pessoa média precisaria de comer cerca de vinte e quatro bananas por dia se estas fossem a única fonte de calorias.
As bananas contêm quantidades consideráveis de uma substância chamada serotonina, que pode ser ligeiramente tóxica, e alguns especialistas sugerem que depender delas como principal fonte de energia seria desaconselhável. No entanto, em partes do mundo, as pessoas utilizam-nas como principal fonte alimentar.
Embora mais de 90% das bananas cultivadas sejam utilizadas diretamente como alimento, vários produtos são feitos com o restante. Uma farinha ou pó de banana é por vezes produzido. Segundo o método primitivo de secagem dos frutos para farinha, as bananas eram colocadas em montes sobre esteiras com uma mistura de estrume de vaca e água e cobertas com folhas. Os métodos modernos envolvem o corte das bananas em fatias e a secagem por meios artificiais.
Doces e várias confeitarias são feitos dividindo e secando as bananas. Bananas fatiadas e secas são utilizadas como chips de banana. Uma cerveja para consumo local é feita a partir de bananas em partes de África.
Outras partes da planta são por vezes utilizadas como alimento. As folhas são frequentemente empregadas para embrulhar – a cobertura espessa e cerosa da folha torna-a um “papel encerado” ideal – ou para pratos, e por vezes para guarda-chuvas de emergência.
Melhoramento genético e desafios futuros
O melhoramento científico da banana tem sido realizado apenas há meio século, quase todo em Trinidad. Grande parte do trabalho inicial concentrou-se necessariamente em aprender o máximo possível sobre a planta. São necessárias sementes para estudos de melhoramento e, felizmente, a maioria das bananas comestíveis produzirá sementes, embora em número muito reduzido, se polinizadas. Até agora, tem havido apenas um sucesso limitado na produção de variedades melhoradas.
A fibra da folha da banana não tem importância comercial, mas membros de outras espécies do mesmo género têm fibras valiosas. A Musa textilis, comummente conhecida como cânhamo de Manila, assemelha-se muito a uma bananeira, mas tem um fruto não comestível; produz uma fibra extremamente forte no pecíolo da folha, utilizada para fazer cordame de alta qualidade. A fibra é uma das principais exportações das Filipinas. A planta estabeleceu-se bem na América tropical durante a Segunda Guerra Mundial e foi amplamente cultivada na América Central em plantações de banana devastadas por doenças.
Os desafios futuros para o cultivo da banana incluem o desenvolvimento de variedades resistentes a doenças, particularmente à fusariose, que continua a ameaçar a produção global. A limitada diversidade genética das bananas comerciais torna-as particularmente vulneráveis a patógenos. Além disso, as alterações climáticas representam uma ameaça adicional, potencialmente alterando as áreas adequadas para o cultivo e introduzindo novos desafios em termos de pragas e doenças.
A conservação da diversidade genética das bananas selvagens e das variedades tradicionais é crucial para garantir a sustentabilidade futura desta cultura vital. Os bancos de germoplasma e os esforços de conservação in situ desempenham um papel fundamental na preservação dos recursos genéticos que poderão ser necessários para enfrentar os desafios futuros.
A bananeira, essa erva perene gigante que alimenta milhões de pessoas diariamente, continua a ser um exemplo notável da ligação entre a humanidade e o reino vegetal – uma planta que, através da sua estrutura única e capacidade de regeneração, simboliza a própria imortalidade que tem sustentado culturas e economias ao longo dos milénios.
