O fosso alimentar entre bairros ricos e pobres

Rua de suburbio com uma barreira de comida

A segregação alimentar nas cidades portuguesas e mundiais representa um dos maiores desafios sociais do século XXI. Este fenómeno, frequentemente invisível aos olhos da sociedade em geral, manifesta-se através de um acesso profundamente desigual a alimentos frescos, nutritivos e de qualidade entre diferentes zonas urbanas. Em Lisboa, por exemplo, a diferença entre fazer compras no Mercado de Campo de Ourique ou num pequeno supermercado da Cova da Moura ultrapassa largamente a questão do poder de compra.

O conceito de desertos alimentares tornou-se cada vez mais presente nas discussões sobre desenvolvimento urbano. Estas zonas, caracterizadas pela ausência de estabelecimentos que vendam alimentos frescos e nutritivos a preços acessíveis, são predominantes em bairros economicamente desfavorecidos. Em Portugal, áreas como o Vale da Amoreira, na Margem Sul, exemplificam esta realidade, onde os moradores necessitam de percorrer vários quilómetros para aceder a um supermercado bem abastecido.

Em contrapartida, os bairros mais abastados apresentam uma abundância de opções alimentares saudáveis. A Avenida da Liberdade, em Lisboa, ou a Foz do Douro, no Porto, são exemplos paradigmáticos desta realidade, com múltiplos estabelecimentos comerciais que disponibilizam produtos biológicos, mercearias gourmet e mercados de produtos frescos. O Mercado de Campo de Ourique, renovado em 2013, transformou-se num polo gastronómico de excelência, enquanto bairros periféricos continuam desprovidos de infraestruturas básicas de abastecimento alimentar.

A questão económica ultrapassa o simples poder de compra. A segregação espacial nas cidades portuguesas reproduz e amplifica as desigualdades sociais existentes, criando ciclos viciosos de pobreza e exclusão. Os estabelecimentos comerciais de qualidade tendem a instalar-se em zonas onde existe maior poder de compra, criando um ciclo que perpetua a desigualdade.

A mobilidade urbana desempenha um papel crucial na segregação alimentar. Os residentes de bairros periféricos, frequentemente mal servidos por transportes públicos, enfrentam dificuldades acrescidas no acesso a estabelecimentos comerciais de qualidade. O tempo e custo associados às deslocações tornam-se barreiras significativas ao acesso a uma alimentação adequada.

As consequências da segregação alimentar refletem-se diretamente na saúde das populações. Nas zonas mais desfavorecidas, a predominância de estabelecimentos de fast food e a escassez de alternativas saudáveis contribuem para taxas mais elevadas de obesidade, diabetes e outras doenças relacionadas com a alimentação.

Diversos projetos têm surgido para combater esta realidade. O programa “Bairros Saudáveis”, implementado em 2020, procura criar hortas comunitárias e mercados locais em zonas carenciadas. Em França, a cidade de Paris implementou um sistema de mercados móveis que percorrem os bairros mais desfavorecidos, uma iniciativa que poderia ser replicada em Portugal.

As autarquias possuem um papel fundamental no combate à segregação alimentar. A criação de incentivos fiscais para a instalação de estabelecimentos comerciais em zonas carenciadas, o desenvolvimento de mercados municipais e o apoio a iniciativas comunitárias são algumas das medidas que podem contribuir para mitigar este problema.

As grandes cadeias de supermercados têm uma responsabilidade significativa na perpetuação da segregação alimentar. A sua política de localização, privilegiando zonas de maior poder de compra, contribui para o agravamento das desigualdades no acesso a alimentos de qualidade.

A evolução tecnológica e as novas formas de comercialização, como as entregas ao domicílio e as compras online, podem contribuir para atenuar algumas desigualdades no acesso aos alimentos. No entanto, estas soluções apresentam limitações, nomeadamente ao nível dos custos associados e da necessidade de literacia digital.

Literatura recomendada
Alkon, Alison Hope, Black, White, and Green: Farmers Markets, Race, and the Green Economy, University of Georgia Press, 2012.
Pothukuchi, Kameshwari, Sustainable Food Systems: Building a New Paradigm, Routledge, 2016.
Winne, Mark, Closing the Food Gap: Resetting the Table in the Land of Plenty, Beacon Press, 2008.

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